
Os diretores das quatro maiores corporações de cruzeiros do mundo — Carnival Corporation, Royal Caribbean Group, Norwegian Cruise Line Holdings (NCLH) e a Divisão de Cruzeiros do Grupo MSC — reuniram-se em Miami Beach, nos EUA, durante a Seatrade Cruise Global, para debater o cenário operacional da indústria de cruzeiros.
O painel entre os executivos revelou os planos do setor para lidar com o impacto da alta do combustível devido à tensão no Oriente Médio e o combate ao overtourism, além do que os executivos chamaram de uma disparidade de preços em relação a resorts e destinos terrestres.
Combustível e o fim do bloqueio no Golfo

A alta de cerca de 50% no preço do petróleo desde o início do conflito no Golfo Pérsico, no final de fevereiro, foi apontada como o desafio mais imediato aos cruzeiros.
Josh Weinstein, CEO da Carnival Corporation, reconheceu o impacto temporário nos resultados financeiros da companhia, mas reforçou que a empresa aposta na eficiência energética em vez de hedge (proteção financeira por contratos futuros).
“O foco da Carnival é usar menos combustível. Se usarmos menos, economizamos dinheiro e é melhor para o planeta”, afirmou Weinstein. “Há sempre volatilidade no mundo. A grande vantagem dessa indústria é que nos adaptamos e perseveramos,” acrescentou.
Para o Grupo MSC, o impacto da guerra no Oriente Médio foi também operacional, com cancelamento de cruzeiros e a retenção de um navio.
Pierfrancesco Vago, presidente executivo da companhia, explicou que a situação acabou impactando o planejamento da temporada de verão na Europa. A armadora precisou cancelar cruzeiros para os Fiordes Noruegueses a bordo do MSC Euribia por conta do fechamento do Estreito de Ormuz.
A embarcação, no entanto, conseguiu deixar a região na última semana e segue para a Alemanha para retomar sua agenda de viagens no Norte Europeu.
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A defasagem de preços e o “Value Gap”

Os executivos ainda afirmaram existir uma diferença significativa no custo de um cruzeiro e de outras opções de férias terrestres de padrão equivalente.
Conhecida no setor como value gap, a situação gerou um consenso de insatisfação entre os representantes das companhias.
Jason Liberty, presidente e CEO do Royal Caribbean Group, classificou a discrepância como “incrivelmente frustrante”, apontando que o mercado precisa reverter esse cenário, aumentando preços dos cruzeiros e melhorando as margens das empresas.
John Chidsey, presidente e CEO da NCLH, avaliou que a proposta de valor dos navios ainda é inigualável, o que permite manobras comerciais. “Como controlamos a experiência, seja nas ilhas ou no navio, temos uma grande vantagem. Ainda há muito espaço para o crescimento tarifário“, avaliou Chidsey.
Weinstein complementou o raciocínio lembrando que a atual limitação da oferta global de leitos protege a indústria.
A Carnival Corporation vem enxugando sua oferta nos últimos anos, vendendo navios mais antigos e diminuindo a entrada em operação de novas embarcações. Um exemplo é a Costa Cruzeiros, marca do grupo que se desfez de nove navios desde 2020.
“Essa escassez de oferta nos permite manter o tipo de produto e experiência que queremos oferecer em um nível de preço que seja bem-sucedido para o negócio”, resumiu o CEO da Carnival.
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Overtourism, ilhas privativas e transição energética

Sobre o controle do fluxo de passageiros e o overtourism, Vago defendeu o planejamento estruturado entre as armadoras e as autoridades locais, citando o gerenciamento em Dubrovnik como um caso bem-sucedido de escalonamento logístico.
Jason Liberty ressaltou que as ilhas privativas operadas pelas companhias desempenham um papel fundamental para absorver a demanda e aliviar os portos tradicionais superlotados.
No campo ambiental, Liberty garantiu que a volatilidade geopolítica temporária não altera a busca contínua do grupo por opções de energia de baixo carbono.
Presente nos debates, o presidente e CEO global da Associação Internacional de Cruzeiros Marítimos (CLIA), Bud Darr, cobrou esforços conjuntos para a descarbonização.
“O progresso contínuo e o impacto econômico sustentado exigem colaboração entre os setores, investimento em infraestrutura, avanço de combustíveis alternativos e regulamentação pragmática”, afirmou.
Questionado sobre a viabilidade da energia nuclear em navios de cruzeiro, Darr apontou que a percepção de segurança do consumidor ainda é um obstáculo para a instalação a bordo, mas defendeu o uso da tecnologia na cadeia de suprimentos.
“Posso imaginar a energia nuclear sendo usada para processar os combustíveis de baixo carbono do futuro, ajudando a indústria com suas metas ambientais”, projetou.
NCLH: reestruturação e a busca pela autenticidade

John Chidsey, que assumiu o comando da Norwegian Cruise Line Holdings (NCLH) em fevereiro, apresentou-se como um executivo especializado em reestruturações.
Substituindo Harry Sommer, Chidsey tomou posse do cargo em um momento de instabilidade, marcado por cobranças de investidores e questionamento de estratégias.
Sem experiência no setor de cruzeiros, o executivo passou por empresas de seguro e mais recentemente esteve à frente da rede de lanchonetes Subway. Chidsey destacou seu perfil de gestão próxima à operação, dizendo gostar de reestruturar companhias e destacando a possibilidade de implementar melhorias para a NCLH.
“É divertido saltar de paraquedas e entrar nos detalhes”, disse, acrescentando que já era parte do conselho administrativo da companhia desde 2025.
Sobre o crescimento das ilhas privativas, o CEO da NCLH admitiu que esses destinos podem soar artificiais para parte dos viajantes por serem ambientes totalmente controlados pelas armadoras.
“Sabemos que há pessoas que desejam experiências autênticas fora do nosso ecossistema. Não acredito que seja um ou outro; precisamos investir em ambos”, explicou Chidsey, defendendo o equilíbrio entre destinos exclusivos e incursões culturais reais.
A Norwegian Cruise Line atualmente investe em uma revitalização completa de sua ilha privativa, a Great Stirrup Cay, que passará a contar com um parque aquático, piscina aquecida e outras novidades.
Texto e Imagens (©) Copyright Daniel Capella













